sábado, 6 de outubro de 2012

Relógio d'água


 
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            O velho senta, abre o jornal, sorri e joga comida aos pombos. O azulejo descolore a filosofia do espelho torto. O mal olhado está estrábico, confuso e pede um colírio nas sinaleiras da cidade. Os mendigos gastam dinheiro em seus carros de papelão e a água escorre nas calçadas desconexas da cidade.

      
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domingo, 30 de setembro de 2012

M.R.U


As árvores conversam com o vento as loucuras que o tempo deixou de apresentar.

O tempo nega a loucura e diz para as árvores que o vento não mais voltará.

A cidade entende que o vento não voltara e aceita o tempo que deixa estar.

A flor acredita ser árvore para poder se enfeitar.
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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Quilting e os retalhos do tempo.



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Não ligue. Os pingos de chuva são só saudade de estar ai, saudade de contornar os versos e a fala tremida de um velho e uma bengala. Mas aproveitem, faça seu coração bater o mais forte possível, sinta a voz dele conversar com você, pois quando isso acontecer eu estarei ao seu lado, corra, até que seu sorriso rasgue esta imagem cinza do céu, do seu céu.

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domingo, 16 de setembro de 2012

Decupar.

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            Minha pequena venha morar comigo em minha fazenda, traga seus livros e sua psicologia para o ar do campo, traga também meias, aqui esta frio e o tempo muda constantemente. Ao levantar hoje senti seu perfume mais perto e ao imaginar que abrir os olhos encontraria os seus, senti uma leve frustração, então corri pela casa a gritar seu nome. Deparei-me com seus bilhetes e uma foto sua que fez abrir as lagrimas de meus olhos e os sinos da igreja.
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domingo, 9 de setembro de 2012

Rascunho.


            Era para ser junho, mas São Pedro não estava muito para o frio. Esqueceu de ligar o ventilador e acabou esquentando naquelas duas ou três semanas em que ela viajou para o sul.

            Durante muitos anos o inverno foi rigoroso para aquela cidade do sul, mas naquela semana de Junho não. A paisagem continuou com seus tons de vermelho como se fosse Outono, parecia que a aguardavam com delicados presentes de folhas prestes a secar. A temperatura estava exatamente dezoito graus, aquele ato de despir o cabide já não era necessário.

            Lembro como se fosse ontem, a porta do trem abriu e com a fumaça só conseguia ver as sombras e vultos de pessoas com malas e crianças de colo. Foi quando a reconheci. Pateticamente cocei a cabeça e calmamente fui em sua direção, me deparei com uma mulher de cabelos longos, ondulados, de cor tão única que eu mal conseguiria definir, mas era algo tão delicado e perfeitamente desenhado. Cor por cor, fio por fio, onda por onda, do inicio ao fim. Seu vestido verde combinava com as folhas das árvores.
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domingo, 12 de agosto de 2012

Domingo em serenata.


            Agora que as gotas da chuva já secaram, eu posso contar quantas palavras arremessei em meu chapéu. Das cartas em minha mesa sobraram apenas os valetes, as violetas no vaso e a televisão fora do ar. Como um discurso improvisado, recuso as frases decoradas e esta caneta que ora falha, ora ama, desenha e descreve seus olhos.
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sábado, 7 de julho de 2012

Observatório 16.

(Desenho: Priscila Tonon.)



            O peito aberto torna-se suspenso ao fato dos olhos desdobrarem os escudos. É como a vida, o encontro de duas mãos, unidas em um verso, um terço de oração, para então afim de tudo, nuca, mãos, pés e pensamento, nunca mais separar.

            O mais belo nos olhos é poder ser observador e observado ao mesmo tempo, assim como tantos outros espelhos por ai, e pra falar a verdade eu já não sei se estou para fora ou dentro de mim.

            Mergulhar em seu abraço é deitar no céu, sentir o olhar de suas mãos, o toque de seus olhos e o desejo quase que infinito de suas sombras na água. O céu, minha querida, é só um pedacinho de papel azul com algumas manchas do café da manhã, alguém que deve ter esquecido um verso, ou outro enquanto acordava no domingo. Queria ter aqui uma maquina de fotografia, seria uma maneira mais fácil para explicar as reviravoltas do meu pensamento.

            Um raio de luz, talvez isto me deixe paralisado até tocar seus cabelos...

            E no universo de seus lençóis, me faço criança descobrindo o sol, suas costas, até o fim da cama, o fim da corda. Seria injustiça, pequena, ter de ir agora, logo agora que acertei o traço deste desenho.